CORRELAÇÃO DA VULNERABILIDADE SOCIAL COM O ÍNDICE DE CÁRIE DENTÁRIA NOS ESTADOS DA REGIÃO CENTRO-OESTE

CORRELATION OF SOCIAL VULNERABILITY WITH THE DENTAL CARIES INDEX IN THE STATES OF THE CENTRAL-WEST REGION

REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10362519


Joyce de Oliveira1
Marcia Valéria Leal Guimaraes2


Resumo

A cárie dentária pode ser caracterizada como lesão decorrente do processo de desmineralização da estrutura dentária, que para sua instalação tem o potencial de requerer aspectos biológicos, fisiológicos, além de fatores comportamentais, sociais e econômicos relacionados à vulnerabilidade do indivíduo. Populações vulneráveis, tendem a ficar em maior exposição ao risco de desenvolvimento de cárie, devido a fatores como a educação inadequada em saúde bucal, a falta de acesso à água potável fluoretada, a dificuldade de acesso aos serviços de saúde preventivos e eletivos, as dificuldades econômicas para adquirir alimentos saudáveis e produtos de higiene oral. Posto isso, o trabalho objetiva investigar se há uma relação positiva entre a vulnerabilidade social dos Estados da região Centro-Oeste do Brasil com seus índices de cárie dentária. Tendo como metodologia a análise quantitativa de dados secundários de domínio público, publicados pelos principais veículos de pesquisas, realizando a tabulação simples de dados estaduais de vulnerabilidade e cárie dentária e posteriormente a tabulação cruzada entre os números encontrados. Os resultados possibilitam mapear essa relação, podendo ser consultadas por gestores municipais, estaduais e federais, auxiliando na composição de ações práticas de escopo a saúde bucal, proporcionando subsídios para criação de estratégias voltadas ao atendimento das iniquidades e atuando como aporte as novas bases de pesquisas.

Palavras-chave: Vulnerabilidade social. Cárie dentária. Saúde Bucal.

INTRODUÇÃO

Conceituar vulnerabilidade é um trabalho complexo e minucioso visto a multidimensionalidade do termo. Para desenvolvimento do artigo proposto, a descrição melhor atrelada é a proposta por Busso (2001), onde descreve a vulnerabilidade como a limitação de recursos que um indivíduo ou comunidades tem para enfrentar riscos que defrontem com seu estado de bem-estar.

A cárie dentária é um problema de saúde pública ativo, relacionado a iniquidades sociais, ainda distante de solução e que acomete indivíduos independentemente da idade, causando desmineralização nas superfícies dentárias podendo resultar em desconforto/dor, afetando a estética e função dos dentes, fator que influência diretamente em questões sociais como autoestima e empregabilidade (BATISTA, VASCONCELOS & VASCONCELOS, 2020).

No que tange a etiologia, a cárie vem sendo amplamente discutida, sendo atualmente aceita a descrição de lesão ocasionada a partir da situação de desequilíbrio químico de cunho local, do processo de desmineralização e remineralizarão da estrutura dentária. Essa alteração pode e deve ser controlada considerando os fatores que, de forma direta ou não, interagem com esse meio, onde além de causas biológicas e alimentares, são determinantes as situações sociais, econômicas, e comportamentais relacionadas à vulnerabilidade social do indivíduo (LIMA, 2007).

A área alvo da pesquisa é a Região Centro-Oeste composta pelos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Brasília-DF, que terão dados apresentados individualmente, para posterior comparação do quadro regional geral. Cada Estado da Região Centro-Oeste possui características próprias e níveis de desigualdades variáveis, sendo o Índice de Vulnerabilidade Social- IVS utilizado para essa pesquisa calculado com base em 16 indicadores que abordam as vertentes das condições de infraestrutura urbana, do capital humano/ renda dos indivíduos e também critérios que analisam o trabalho. O índice de cárie avaliado considera os elementos Cariados, Perdidos, Obturados para dentição permanente e cariados, com extração indicada e obturados em dentes decíduos, respectivamente índices CPO- D e ceo-d. A correlação dos índices de cárie com os de vulnerabilidade social produzirá importantes dados que permitirá a análise do contexto populacional da região e se há influência direta nas condições de saúde bucal dos cidadãos adscritos (MARGUTI et al., 2018).

Frente ao exposto, não existe na literatura uma análise associada dos critérios de vulnerabilidade social de cada Estado da Região Centro-Oeste do país com seus respectivos índices de cárie dentária CPO-D e ceo-d. Dessa forma, esse estudo tem como objetivo estimar se há correlação positiva entre esses critérios, ou seja, se é possível definir que em Estados mais vulneráveis o índice de elementos afetados pela doença carie também é maior, ou se a análise deve seguir de forma mais ampla, analisando os critérios de avaliação dos investimentos em políticas públicas voltadas à saúde bucal, podendo subsidiar novas pesquisas e fomentar o interesse público regional frente à associação dessas questões, buscando expandir e não limitar a busca de soluções para a problemática social da cárie em todos os ciclos de vida.

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A cárie dentária é um problema de saúde pública reconhecido internacionalmente que depende de fatores etiológicos predisponentes, e ainda geram discussões entre estudiosos do assunto. Os temas conceito, definição e etiologia são fundamentais para o entendimento e para a proposta de soluções da doença, seja no nível individual ou coletivo. Dessa forma, o estudo da cárie deve ser amplo e não estagnado, tendo como objetivo o encontro de melhores propostas de intervenção (LIMA, 2007).

Atualmente o conceito de cárie dentária considera fatores tanto intrínsecos como extrínsecos, ou seja, que são dependentes do próprio organismo do indivíduo como saliva e sua capacidade “tampão” de re-mineralização e fatores associados aos aspectos sociais e culturais, respectivamente. Nesse conceito, famílias em situação de vulnerabilidade social estão mais propensas ao risco de desenvolvimento de lesões de cárie decorrentes da exposição a fatores extrínsecos que contribuem com desenvolvimento da lesão, como baixo nível de conhecimento sobre alimentação e higiene oral adequados, aliados à falta/dificuldade de acesso à água fluoretada e as políticas públicas em saúde bucal disponíveis (VILAR, PINHEIRO & ARAÚJO, 2020).

2.1  Cárie dentária

A cárie é caracterizada pela dissolução da estrutura dentária frente a exposição de ácidos produzidos por microrganismos específicos como o Streptococcus mutans, Actinomyces sp e os Lactobacillus sp. Esses ácidos e sua consequente desmineralização de tecido são produtos do processo de fermentação bacteriana (de carboidratos ingeridos pelo hospedeiro) sobre a superfície dentária. Esse processo decorre não somente do fator microbiótico, sendo fundamental a presença dessa placa em atividade por um período considerável, para interação de desiquilíbrio com o meio oral (JENSEN, VIEIRA & SCUTTI, 2017).

Dessa forma, a cárie dentária tem fatores de suscetibilidade tanto do hospedeiro quanto do dente que devem ser considerados para uma melhor definição de sua fisiopatologia. A do indivíduo considera fatores comportamentais, biológicos e imunológicos, enquanto a do dente analisa a resistência à dissolução por ácidos e a velocidade de remineralização do órgão. Sua precoce identificação é fundamental para definição da abordagem clínica a ser utilizada, sendo o grau de sucesso da técnica definido pelo correto emprego, em tempo oportuno, à fase em que a lesão se encontra (BATISTA, VASCONCELOS & VASCONCELOS, 2020).

Outros fatores também devem ser considerados, como a necessidade de uma dieta determinada cariogênica, ou seja, composta por alimentos com alto teor de carboidratos entre eles a sacarose. É fundamental reforçar que mais importante que considerar o consumo, é avaliar a frequência de ingestão desses alimentos, associada à sua consistência e adesivibilidade dental, pois o tempo que o alimento ficará impregnado ao dente é fundamental para o desfecho clínico e consequente aumento da susceptibilidade do hospedeiro (FEIJÓ & IWASAKI, 2014). O tratamento com base na abordagem minimamente invasiva, ou seja, resolvendo o problema causando o mínimo de dano colateral possível, reproduz o “padrão ouro” na odontologia moderna atual, com isso os estudos sobre a etiologia e os fatores determinantes da doença vem evoluindo e, consequentemente, o tratamento se aprimorando. Esse fator se estende ao nível de prevenção, onde estratégias são fomentadas com vista na redução de danos e promoção da saúde (SILVA, 2019).

A odontologia conta com um estudo para análise da situação atual da cárie na sociedade brasileira sendo o programa de pesquisa denominado Saúde Bucal Brasil- SB Brasil, que gera dados consistentes a cada 10 anos sobre os mais variados aspectos da saúde bucal dos brasileiros, dentre eles os índices CPO-D e ceo-d que avaliam os dentes cariados, perdidos, obturados, da dentição permanente e decídua de faixas etárias específicas da população (5, 12, 15 a 19, 34 a 45 e 65 a 74 anos). Essa apresentação permite a criação de dados elegíveis para base de pesquisas e fomentação de políticas públicas voltadas principalmente ao Sistema Único de Saúde- SUS. O SB-Brasil de 2020 foi adiado frente a pandemia de Covid-19 enfrentada nos últimos anos, estando até hoje em realização (diligência entre 2022-2023), devido a problemas como a elegibilidade da amostra e a aceitação/aderência popular. A última pesquisa completa foi realizada no ano de 2010, com amostra de todas as capitais e do Distrito Federal, tendo sido entrevistadas 37.519 pessoas, que tiveram avaliadas além das condições socioeconômicas, através de questionário aplicado, o exame clínico das alterações periodontais, traumatismo, oclusão, fluorose e o uso e necessidade de prótese (SB-Brasil, 2010).

2.2 Vulnerabilidade social

No passado, antes do início da investigação da vulnerabilidade social, sua definição se restringia apenas ao sinônimo de pobreza. Atualmente o termo possui conceituação heterogênia, respeitando o contexto social a qual está inserido o indivíduo e seus muitos fatores ocasionais decorrentes, sendo possível acatar a impossibilidade de declarar como apenas econômico, um termo que abrange questões de ordem estrutural, com base na história política, econômica e social do país (CANÇADO, DE SOUZA & DA SILVA CARDOSO, 2014).

Janczura (2012) aborda em sua revisão de literatura alguns conceitos de vulnerabilidade social relevantes para o estudo, referindo que o termo está intrinsecamente ligado aos critérios de iniquidade e exclusão, não apenas econômicas, mas também sociais e culturais, resultado de uma política democrática, mas excludente, de indivíduos com baixos salários, níveis escolares mínimos ou inexistentes, segurança precária e infraestrutura a desejar.

A saúde também possuí seu conceito de vulnerabilidade volátil e adaptado consoante a evolução/alteração da estrutura populacional e as necessidades emergentes do país, atualmente passando pela transição de perfil de doenças parasitarias e agudas, para o de doenças crônicas e psicológicas. Outrossim, é descrito em situação de vulnerabilidade à saúde pessoas que estão expostas ao risco de danos a ela, sendo a intensidade considerada como fator determinante. Dessa forma, pode-se refletir que o risco de adoecimento e morte de um indivíduo, são predispostos pela sua vulnerabilidade a doenças e desordens ocasionada por essas (CANÇADO, DE SOUZA & DA SILVA CARDOSO, 2014).

Nesse contexto, o Índice de Vulnerabilidade Social- IVS avalia alguns aspectos referentes a infraestrutura urbana, ao capital humano, à renda e trabalho para a composição dos números locais. Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada- IPEA a infraestrutura urbana analisa o acesso dos indivíduos ao saneamento básico, considerando também a qualidade da mobilidade urbana à qual a população daquela região tem acesso, sendo considerados 3 indicadores para avaliação dessa categoria. O capital humano se refere aos aspectos de educação e saúde de determinada região, sendo composta por 8 indicadores para seu cálculo. E por fim, o trabalho e renda avalia entre outras coisas a insuficiência, a desocupação e o trabalho infantil, composto por 5 indicadores de mesmo peso. Os indicadores dos aspectos citados são calculados entre si, resultando no IVS de cada região, podendo ser definida em muito baixa (0- 0,200), baixa (0,201- 0,300), média (0,301- 0,400), alta (0,401-0,500) e muita alta (0,501- 1) (COSTA & MARGUTI. 2015).

2.3  Região Centro-Oeste

O Brasil é um país vasto em natureza, riqueza, cultura, diversidade e infelizmente desigualdades, que caracterizam uma sociedade emergente, onde as grandes riquezas se concentram nas “mãos” de poucas pessoas. Constitui-se de 5 regiões, Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste. A região Centro-Oeste escolhida para o estudo abrange os Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Brasília. Com a população total estimada em

16.492.326 habitantes, sendo 2.833.742 para o Mato Grosso do Sul, 3.784.239 Mato Grosso, 6.950.976 Goiás e 2.923.369 para o Distrito Federal (IBGE, 2022).

O Centro-Oeste brasileiro possui particularidades regionais, como fronteiras com os Países Paraguai e Bolívia, e seu território abrange a maior área de planície alagável do país denominado Pantanal, dividido em mato-grossense e sul-mato-grossense. Além disso, abrange a capital distrital do país- Brasília, onde são discutidas propostas para o progresso nacional ao nível político. A economia local é bem definida para atividades primárias, pecuária, agricultura e o extrativismo (restrito a algumas cidades). A agricultura local é diversificada, aproveitando a variação climática da região no decorrer das quatro estações. A produção, por vezes, abastece não apenas o comercio local, como também outros Estados do país, sendo comum a exportação de produtos dessa região a países variados que possuem acordos diplomáticos com o Brasil. Por conseguinte, a pecuária do Centro-Oeste também é um mercado forte no ramo das exportações de carne e seus derivados, sendo referência no manejo de gado de corte, leiteiro, cria, recria e engorda. Em algumas regiões restritas, as atividades mineradoras são bastante fomentadas como o caso da mineração de ferro e manganês, presentes no Maciço do Urucum em Corumbá- Mato Grosso do Sul, reconhecidas inclusive internacionalmente (BEZERRA, [s.d.]).

2.4  A influência da vulnerabilidade social sobre os índices de cárie dentária

Existem na literatura diversos estudos correlacionando os fatores socioeconômicos às iniquidades em saúde bucal. Essas diferenças são evidentes em Estados com altos índices de vulnerabilidades sociais decorrentes da baixa renda per capita, baixo Índice de Desenvolvimento Humano- IDH, alto número de desemprego e empregos informais de baixa remuneração. Nesse contexto, a população vulnerável encontra índices de cárie dentária mais elevados que a população estável, visto a dificuldade de acesso aos serviços de saúde bucal e principalmente a dificuldade de manutenção dos protocolos preventivos da lesão. Podendo ser referenciado como fator preponderante a falta de infraestrutura e saneamento de algumas cidades, que não contam com a presença de água potável e fluoretada, para consumo dessas famílias (TSUZUKI et al., 2018).

As consequências geradas pela cárie dentária não tratada a longo prazo repercutem diretamente na manutenção do quando de iniquidade, pois seus danos podem ocasionar lesões dolorosas que impedem, por vezes, a alimentação, afetando a dignidade do ser humano, principalmente quando ocorre a perca do elemento (visto a destruição ocasionada pela doença), acarretando dificuldades no processo de relacionamento interpessoal, e até mesmo na conquista de emprego, contribuindo ainda mais para permanência do indivíduo em um quadro de exclusão social (COELHO, 2014).

Estudos mundiais recentes apontam redução no número de prevalência da doença em âmbito geral, porém regiões vulneráveis ainda possuem referências alarmantes sobre os índices de cárie dentária local. Segundo dados do último SB-Brasil 2010 as regiões Sul e Sudeste do país apresentam dados superiores e satisfatórios quando comparados às demais regiões brasileiras, sendo também referido, que cidades- capitais possuem melhores classificações nos índices CPO-D e ceo-d do que cidades do interior de cada Estado. Assim, é preciso analisar a hipótese de que há melhores investimentos públicos em acesso aos meios de prevenção e curativos da lesão, aliados ao amplo acesso à informação de forma efetiva, nos grandes centros. Divergindo do interior, onde as políticas públicas são, por vezes, morosas e a informação pode não chegar afinca ao indivíduo, transgredindo o princípio da descentralização preconizada pelo SUS (DE FARIA et al., 2018).

Com vista a reduzir os danos causados pelas iniquidades em saúde bucal, houve a implementação do Brasil Sorridente, política pública que visa a acessibilidade aos serviços odontológicos, ao nível de atenção primária, especializada e também hospitalar, pendendo a destinação de recursos para os níveis de prevenção, promoção e recuperação do cuidado. Utilizando de diretrizes do SUS para sua fundamentação, o processo de construção do acesso universal e equânime a todos os usuários está em elaboração e apenas com pesquisas destinadas ao conhecimento da população e suas vulnerabilidades é possível a efetiva discussão do tema, para elaboração de propostas eficazes no planejamento de ações e serviço, com investimento público assertivo e responsável (COSTA et al., 2004).

METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa de viés analítico transversal quantitativo, que visa traçar um estudo, em números, sobre a relação direta entre vulnerabilidade social e os índices de cárie dentária na população, limitada aos Estados de Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Brasília, através de dados secundários de domínio público, servido pela base de dados do IPEA com números para avaliação dos índices de vulnerabilidade social e do último SB-Brasil, sobre as amostras dos índices de CPO-D e ceo-d de cada Estado mencionado, sendo todas fontes citadas atualizadas no ano de 2010.

O trabalho conta com referencial teórico de aporte a pesquisa, que utiliza artigos das principais plataformas de pesquisa em saúde, BVS- Biblioteca Virtual em Saúde, Scielo e Google Acadêmico. A pesquisa apresenta o levantamento de dados pertinentes a vulnerabilidade social, o levantamento dos índices de cárie dentária, e por último a correlação entre os dados coletados.

Apresenta-se a tabulação simples dos dados separados por Estados, relacionado ao índice de vulnerabilidade social e CPO-D/ ceo-d. E também a tabulação cruzada de ambas as coletas. Essa análise e o resultado obtido são discutidos de forma objetiva e contextualizada com literaturas que discorrem sobre o tema.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Após coleta dos dados secundários apresenta-se valores por Estado da região Centro- Oeste, considerando seus Índices de Vulnerabilidade Social no ano de 2010. Além disso, aponta os valores específicos das 3 dimensões fornecidas na base de dados, para cálculo da média.

EstadoAnoIVSIVS Infraestrutura UrbanaIVS Capital HumanoIVS Renda e Trabalho
Distrito Federal20100,2940,4120,2650,204
Goiás20100,3310,3850,3340,274
Mato Grosso20100,2770,1850,3590,288
Mato Grosso do Sul20100,2890,2240,3690,273

Fontes: Elaborado pela autora com dados coletados do IPEA 2010.

Nota-se que o Estado de Goiás apresenta o maior IVS da região Centro-Oeste, com 0,331, compreendendo a faixa de média vulnerabilidade. Respectivamente, apresentam-se os Estados do Distrito Federal 0,294, Mato Grosso do Sul 0,289 e Mato Grosso 0,277 todos compreendendo índices de baixa vulnerabilidade social.

O Distrito Federal apresenta alto índice de vulnerabilidade social relacionado a sua infraestrutura urbana, enquanto Goiás apresenta classificação de faixa média para essa dimensão. Os Estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso apresentam suas maiores vulnerabilidades voltadas às dimensões de capital humano.

O quadro a seguir apresenta o índice de elementos cariados, perdidos/extraído e obturados nas faixas etárias de 5, 12, 15 a 19, 34 a 45 e 65 a 74 anos de idade, gerados de acordo com amostras por Estado do Centro-Oeste brasileiro.

Tabela 2- Média índice CPO-D/ ceo-d

EstadoAnoCPO-D/ceo-d
Distrito Federal20109,87
Goiás201010,86
Mato Grosso201010,92
Mato Grosso do Sul201010,30

Fontes: Elaborado pela autora com dados coletados do SB-Brasil 2010.

Os Estados cuja médias se apresentam maiores são respectivamente Mato Grosso e Goiás com cerca de 10,92 e 10,86 de dentes não hígidos/ausentes por cavidade oral. Enquanto o Distrito Federal apresenta menos de 10 dentes por habitante nessas condições. O gráfico a seguir apresenta ainda a tabulação do número médio de dentes cariados, perdidos e obturados, por pessoa, nos Estados da região Centro-Oeste. Nessa amostra, os dentes classificados em “restaurados com cárie” pela pesquisa SB-Brasil, foram considerados cariados.

Gráfico 1- Comparativo de dentes obturados/ perdidos/ cariados por Estado

Fontes: Elaborado pela autora com dados coletados do SB-Brasil 2010.

O número médio de dentes perdidos por Estado, foi acima de 6 elementos em todo Centro- Oeste, com destaque para as regiões de Mato Grosso e Goiás. O Distrito Federal se destaca no índice de dentes cariados, com quase 3 elementos por entrevistado, sendo Goiás o Estado com menor número de elementos acometidos por essa lesão, com média próxima de 1 por pessoa.

Os elementos tratados por procedimento restaurador é uma importante dimensão a se observar, pois avalia a capacidade de resolução de uma região frente à instalação da problemática da cárie. O Mato Grosso do Sul é o destaque dessa avaliação com aproximadamente 3,2 dentes restaurados por entrevistado, seguido de Goiás com 3 dentes tratados.
A seguir, expõe-se a tabulação cruzada comparativa dos dados em ordem, dos Estados com maior IVS, contraposto com dados dos índices de cárie dentária dos Estados com maior índice para o menor, em ordem vertical, no mesmo ano.

Tabela 3- Índice de vulnerabilidade e cárie por ordem decrescente em 2010

Fontes: Elaborado pela autora com dados coletados do IPEA 2010 e SB-Brasil 2010.

Comparativamente é possível observar que há discrepâncias e pouca relação positiva do Índice de Vulnerabilidade Social geral com seus respectivos índices de cárie dentária. Com destaque ao Estado do Mato Grosso que apresentou o menor IVS da região Centro-Oeste com 0,277, porém, apresenta maior índice CPO-D/ceo-d com 10,92. O Distrito Federal também apresentou comparativos não correspondentes, com valor de IVS de 0,294 próximo a uma classificação de média vulnerabilidade, porém com o menor índice de elementos acometidos, com média de 9,87 por entrevistado.

Mediante análise por dimensão dos índices de vulnerabilidade social com os de cárie, é possível realizar uma discussão aprofundada sobre os determinantes em saúde. Nota-se que a IVS de infraestrutura urbana possuí, em partes, números inversamente proporcionais aos índices de cárie por Estado. Segundo Baldani, Vasconcelos & Antunes (2004) o contexto da infraestrutura tem pouca ou quase nenhuma correlação com o índice de cárie dentária. Este estudo avalia apenas os indicadores de coleta de lixo, deslocamento casa-emprego e a qualidade da água e do esgoto, porém estudos que apontam a infraestrutura em contexto odontológico, mostrando a relação no número de dentista por pessoa e a oferta de atendimento clínico à população, também se mostrou insignificante segundo os autores, da mesma forma que os números encontrados não se correlacionam no âmbito da infraestrutura urbana.

Quando confrontada a dimensão de capital humano, pode-se se observar certa relação com os índices de cárie dentária. Kitamura & Leite (2009), confirmam que as condições socioeconômicas estão diretamente relacionadas com desenvolvimento de cárie dentária na população. Os autores avaliaram o Índice de Desenvolvimento Humano- IDH em municípios mineiros e observaram, apesar de leves variações, que há uma estreita relação com a cárie dentária, sendo cidades de menor IDH com o maior número de dentes afetados pela lesão. O capital humano que envolve, dentre vários indicadores, o que revela a condição socioeconômica popular, calculando o percentual de indivíduos que não estudam, nem trabalham e ainda possuem baixa renda, segue a mesma convicção, pois esses possuem, segundo os descritores, as piores condições de saúde bucal.

Peres, Bastos & Latorre (2000) abordam em pesquisa sobre a severidade da cárie e sua relação com aspectos sociais e comportamentais, uma curiosa vertente que pode se relacionar ao contexto do IVS de trabalho e renda, que se apresentou de forma inversa ao índice CPO-D/ ceo-d avaliado. O autor discute a dieta cariogênica como principal fator de risco ao desenvolvimento da cárie dentária em sua população pesquisada, refletindo que produtos açucarados em doses frequentes eram o principal marcador que precedia lesões. Diante disso, populações com melhores salários e empregos, possuem maior e mais frequente acesso a produtos industrializados com alto teor de glicose, quando comparadas à população carente. Essa iniquidade fomenta a ideia de que os números apresentados pela pesquisa possam fazer tal relação, o que dimensiona o fato dos melhores IVS de trabalho e renda, sejam contradizentes aos índices de cárie dentária. Porém, para Moura et al. (1996), essa análise é improcedente, pois o açúcar no Brasil é de baixo custo, está embutido em diversos alimentos e não há comprovação de discrepâncias do uso entre as classes sociais, o que dificulta analisar se há tal correlação. Este estudo também atribui a controvérsia de maiores taxas de cáries à falta de estímulo a política dos fluoretos.

A perda de dentes é um importante indicador de saúde bucal e também foi avaliada e acomodada na discussão. Não houve correlação positiva da perda de dente com o IVS, pois, a região de maior vulnerabilidade (Goiás) possui compatibilidade semelhante à região de menor vulnerabilidade geral (Mato Grosso) no número dentes perdidos por indivíduos (entre 6,5 e 7 elementos). Cimões et al. (2007), salienta que há distonia entre a causa da perda dos dentes entre a população vulnerável e estável, sendo que o público de maior IVS apresenta um número maior de dente perdidos por cárie, que reverbera o quadro de iniquidade, uma vez que essa população não tem acesso aos serviços reabilitadores protéticos, o que diretamente influi em problemas nutricionais, sociais e consequentemente psicológicos.

Iniciativas de prevenção em larga escala como a fluoretação da água de abastecimento e o acesso a dentifrícios fluoretados se mostram efetivos na redução das desigualdades em populações vulneráveis, o que pode explicar a discrepância de resultados encontrados, concordando com Baldani, Vasconcelos & Antunes (2004) que sugerem um estudo com intuito de analisar se o investimento em infraestrutura, com construção de consultórios odontológicos, possui a mesma influência positiva que fluoretação da água em populações de risco, alertando que é importante investir em infraestrutura, porém sem abdicar das políticas que abranjam a coletividade, e que impactem na diminuição da desigualdade em acesso à saúde bucal. A Atenção Primária à Saúde brasileira tem papel fundamental no controle das discrepâncias sociais em saúde bucal, seu olhar equânime deve propor aos indivíduos em situação de vulnerabilidade, acesso a atendimento digno, empático e acolhedor, respeitando suas limitações. O conhecimento traquejado da realidade da população adscrita é o diferencial que permite à APS cuidar de forma longitudinal e universal, com vista na integração do usuário e na corresponsabilização do cuidado. Prevenindo, educando em saúde e ordenando o cuidado, tendendo a redução de danos, devendo receber um olhar acurado de seus gestores, políticos e da sociedade em todos seus segmentos, em busca da valorização e ampliação de seu acesso.

CONCLUSÃO

Conclui-se que não há correlação positiva dos índices de cárie dentária com o IVS geral da região Centro-Oeste. O que pode ser condizente com a literatura, quando avaliados os índices de cálculo de vulnerabilidade por dimensões. Isso contribui com a análise oportuna de que a criação de políticas públicas que reduzam as desigualdades socioeconômicas, também deve ser considerada junto ao investimento em infraestrutura, com vista a melhoria dos índices de cárie dentária, uma vez que ambos se complementam na diminuição das iniquidades em saúde bucal. A análise concorda ainda com a necessidade de ampliação dos estudos, que avaliem os números recentes dos novos dados da pesquisa SB-Brasil 2020, que estão próximo de serem divulgados. Além disso, a análise da influência da fluoretação da água nessas regiões, como fator preponderante e interferente relacionado aos índices de cárie dentária estaduais, também é de  interesse científico, podendo correlacionar ou não que  regiões  vulneráveis, quando assistidas por ações coletivas de flúor, encontram menores índices de lesões de cárie, independendo de seu IVS.

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Joyce de Oliveira – Discente do Curso de Residência Multiprofissional em Saúde da Família da Instituição SESAU/FIOCRUZ – Campus Campo Grande- MS. e-mail: joycoliver@gmail.com1
Marcia Valéria Leal Guimaraes – Docente do Curso ACLS para médicos da Instituição Rede Otics Rio Campus Viva Rio. Mestre em Odontologia Social e Preventiva. e-mail: leal.mval23@gmail.com2

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